Lisboa – Da lata de conserva para o prato com assinatura de Chefe

Lisboa - Da lata de conserva para o prato com assinatura de Chef logo

 

O consumo de peixe conservado dentro de pequenas latas é hábito enraizado entre os portugueses. Aos produtos do mar, como o atum, cavala, sardinha, bacalhau, juntam-se produtos oferecidos pela terra como azeite, vinagre, tomate. Todos bem ‘apertadinhos’ dentro da lata de conserva. Uma boa técnica de conservação do pescado e uma forma prática de consumir peixe e de o transportar, por exemplo, em viagens.

No Terreiro do Paço, em Lisboa, nasceu em 2012 um espaço que se inspira nas conservas nacionais, mas retira à lata o seu conteúdo e coloca-o no prato, junto com outros produtos portugueses. No Can the Can, as conservas estão nas paredes, no tecto e claro na cozinha. À mesa chega a cavala alimada com puré de batata-doce, lascas de bacalhau com espinafres, tiborna de sardinha, entre outras iguarias.

«O tirar da lata foi a ideia inicial. Queremos mostrar que a conserva pode sair da lata e ser apresentado de outras formas», diz Rui Pragal da Cunha, um dos responsáveis pelo restaurante. Depois, Rui e Vítor Vicente, o sócio, repararam que existem outros processos de conserva, como a salga e o fumeiro. É assim que ao pescado em lata se juntam outros ingredientes que têm como elo comum serem portugueses. Todos são preparados pelas mãos de um arquitecto apaixonado pela cozinha, Akis.

«O Akis é grego, arquitecto, há muitos anos a viver em Portugal. Cozinha maravilhosamente e foi ele o génio de pensar em tirar a conserva da lata», comenta Rui Pragal da Cunha que gere o Can the Can juntamente com Vítor Vicente, o autor de um candelabro feito com três mil latas de conserva e que decora o restaurante. As latas do candelabro, sem rótulos, contrastam com as expostas nas paredes, com rótulos que demonstram a diversidade da indústria conserveira em Portugal.

No primeiro andar do espaço existe uma pequena loja onde se vendem alguns dos produtos servidos na mesa. «Sempre gostei da ideia de que se a pessoa gostou muito de uma coisa servida, a pode levar para casa», sublinha o nosso interlocutor.

Rui refere-se ao espaço com a expressão «hospitalidade» porque é uma casa pronta a receber todos e mostrar o que de melhor há em Portugal. Nesta receita está também incluída a música. No Can the Can há um «Labfado», um laboratório de fado disponível a todos os que «não cantam um fado para as casas típicas e ainda não têm escala para grandes salas», explica.

«Na altura que abrimos o Fado tinha-se tornado Património da Humanidade. Tenho medo que os “Velhos do Restelo” venham dizer o que é ou não Fado. Há gente que tem como âncora o Fado mas não está a fazer o tradicional, o Fado da Mariquinhas, mas não deixa de ser fado. Lancei convite aos músicos que não têm lugar numa casa de fados e não tem projecção para grandes salas para virem tocar no nosso palco», esclarece Rui.

Já na despedida, na esplanada com vista para o Tejo, Rui Pragal da Cunha comenta que este projecto reflecte «o especial carinho pelos produtos portugueses e que aqui se pensa sempre nas coisas portuguesas que muitas vezes são esquecidas».