Uma lata de sardinhas é o cartão de visita que promove o Museu de Portimão no estrangeiro

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Uma lata de sardinhas é o cartão de visita que promove o Museu de Portimão no estrangeiro

A história do Museu de Portimão pode ser contada a partir de uma lata de sardinhas, mas o património em exposição não se esgota na indústria conserveira nascida no Algarve há século e meio. Em breve, vai estar à venda uma nova conserva, que recupera sabores e tradições com 112 anos. Chama-se “La Rose”, deu a volta ao mundo, mas há 40 anos que andava desaparecida. O sector conserveiro, que assistiu ao abate das traineiras, ganha novo fôlego com o regresso das latas de sardinhas e atum, apresentadas como produto gourmet.

Na antiga fábrica de conservas, que pertencera à família Feu Hermanos, de origem espanhola, instalou-se há seis anos, junto ao rio Arade, o museu de Portimão.  Em 2010, o novo espaço cultural – erguido a partir do cemitério da era industrial –  recebeu o galardão “Museu do Ano”, atribuído pelo Conselho da Europa, e a partir daí foi sempre a somar no número de visitantes e prestígio internacional.  A mostra o “Mediterrâneo aqui tão perto”, patente ao público, evoca o tempo em que o Algarve tinhas 80 fábricas de conservas em laboração. Mas, desse passado ainda não muito distante, pouco mais resta do que as memórias “enlatadas” pela política comunitária das pescas.

A empresa Ramirez &Cª (Filhos) anunciou, por ocasião do 6º aniversário do Museu de Portimão, na semana passada, o relançamento da La Rose, apresentada numa embalagem retocada pelo moderno design. Esta lata de conservas, com 112 anos, nascida na antiga fábrica Feu Hermanos, levou o nome de Portugal para países como Inglaterra, Bélgica, França, Alemanha ou E.U.A. Os visitantes do museu já tiveram oportunidade de provar o produto da nova conserva. Porém, ainda não chegou às prateleiras dos supermercados.

Embalagem La Rose produzida pela Ramirez

“Sempre se ouviu falar que, pelo São João, a sardinha pinga no pão”. O provérbio, citado pelo presidente do conselho de administração da empresa, Manuel Ramirez, é usado, em declarações ao PÚBLICO, para justificar o “tempo de espera” até que seja lançada a operação comercial. “Queremos apresentar um produto de qualidade, gourmet, e isso só é possível com peixe com um bom teor  gordura”, enfatiza.

O director do Museu de Portimão, José Gameiro, por seu lado, destaca a importância da parceria estratégica encetada com a firma conserveira, com sede em  Matosinhos, embora tenha nascido em Vila Real de Santo António, expandindo-se depois para Olhão, Albufeira, Setúbal e  Peniche. ”Visite o Museu de Portimão, onde a La Rose nasceu”, este é o apelo, escrito na embalagem, em português e inglês. Com um volume de negócios anual superior a 35 milhões de euros, dos quais 70% provenientes da exportação, a empresa prepara-se para se relançar na conquista de novos mercados. “Hong Kong é um dos destinos que está nos horizontes da Ramirez”, comenta Gameiro, a pensar na eventual captação de turistas chineses viajando nos cruzeiros que regularmente fazem escala em Portimão. A média actual do número de visitantes anda na casa dos 60 a 70 mil por ano, um valor alcançado, sublinha, com a política de promoção que o museu tem feito junto dos operadores turísticos.

O abate das traineiras
O Mediterrâneo, enquanto plataforma de vivências e aproximação dos povos, serve de pretexto para abrir caminho à exposição central “O Mediterrânio Aqui Tão Perto”. A trilogia – pão, vinho, azeite –  entram no mundo das conservas mas a mensagem que se evidencia é aquela que narra a  história dos povos e de uma região que não resistiu à voragem das gruas. “Assisti com tristeza ao lento desaparecimento da frota da pesca e da indústria de conserva algarvia, que chegou a contar com mais de 80 fábricas em laboração”, afirmou Manuel Ramirez, durante a cerimónia de relançamento da marca “La Rose”, no museu de Portimão.

“Marcas que não se comercializam, tendem a desaparecer quando a memória dos consumidores as esquece”, disse o empresário, herdeiro de uma história de 160 anos no sector conserveiro. O sucesso alcançado, admitiu, deve-se, também, à ideia que teve em recuperar marcas históricas, tais como a The Queen of the Coast. A última novidade, La Rose, disse, surgiu de “uma conversa” com o seu amigo António Feu, antigo dono da fábrica onde hoje funciona o museu.

O azul do mar, no olhar dos estrangeiros
A gravura de um barco islâmico, descoberta em Silves, por Varela Gomes, é uma das peças expostas no museu, sugerindo a importância que já teve o rio Arade, na aproximação entre o litoral e o interior de uma região de costas viradas para a serra. O facto da Dieta Mediterrânica ter sido elevada à categoria de Património Imaterial da Humanidade redobrou o interesse por este museu, nascido a partir dos escombros da decadente industria conserveira. “Isto era só ruinas”, evoca José Gameiro, lembrando que o então presidente da Câmara, Martim Garcias, lhe deu “carta verde” para criar um grupo de trabalho para recuperar um património, a desaparecer, ao mesmo tempo que se erguiam as torres da praia da Rocha. “As pessoas sentem que esta é a casa delas”, sublinha, a lembrar o contributo que recebeu da comunidade na reconstituição da história da industria conserveira.  Do mesmo modo, recentemente, recebeu o contributo de 19 artistas residentes no Algarve, a maioria estrangeiros, que foram desafiados a mostrar, nas artes plásticas, como é que o Mediterrâneo influencia as suas obras. “Os estrangeiros captam isto [ o azul do céu e do mar] de uma forma muito interessante”, comenta o director do museu, durante a visita à exposição “Da terra e do Mar”.